domingo, 3 de maio de 2015

ELEGIA A ORFEU






Sepultarás, Orfeu, meu vitorioso nome
sob a hediondez dos teus dizeres.
Honrarás meu canto teu com desonra
e cobardia. À deslealdade és leal!  
Desonrarás o humílimo sentimento
que, porventura, haverão de confiar-te.
Darás ombros costas e omoplatas
àquele que lhe foi fuga carinho e busca
e não cansou de ofertar um verso à tua canção.
Compreenderás a justiça do mundo, do homem,
se mal compreendes e zela qualquer sentir?
Hás de sentenciar de morte isto que em mim é verdade.
Que fui para ti, senão fuga e conveniência?
Que foi para ti, meu verso, senão joia e adereço
a saciar tua fome de astros cometas e constelações?
Ah, a ingratidão é austera meretriz, fria ponciana!
Saibas tu, ao menos, a extensão e profundidade
do teu incisivo sol glacial, adaga vilipendiosa,
na terna ferrugem da carne.
Ó muso imperfeito! Ártico Imperador de civilizações
tragadas na tua ígnea frialdade.
Dize-me, que regozijo te chamusca a face                           
se observas, no outro, dessubstanciar-se
risos primaveras e palavras?
(Amas a inevidência do riso?
Preferes desérticas as estações?)
Mas não te preocupa a palavra:
vê-te na poesia, põe-te orgulhoso,
porque é preciso grandiloquência
para dizer-te, e coragem
para te sorver incontáveis vezes.
Orfeu, murro sobre o gume da faca.
Encerra aqui meu canto que te acredita e prevê.


                                                                                               - 03/05/2015 
                                                                                                 13/10/2016 - reeditado