domingo, 16 de setembro de 2012

Vestígios do porvir





I
                                                                                 
 
Se não me quiseres por perto, manifesta-te.
Dize-me tua insatisfação no teu rir ensolarado,
que de entardecer e nuvens me farei ante tua face
um rir indevastado de sol todo-inteiro-estilhaçado.
Antes, tua palavra era pluma e metalescência.
E não havia em ti um premeditado despedir-se
como há em Rilke [em despedida sempre(!).]
Agora, tudo é insipidez e advertência,
pois predizes teu não-mais querer-me por perto
nos inúmeros vestígios de adeus do teu corpo.


II


Era de permanência o teu antes.
Por que o meu verso te parecia
ostensiva perfulgência.
E noturno, vias nele, rara claridade:
por que te convinhas perceber-te
arrimo colunata e alicerce dele.
E regozijado tu dizias ser
espaço imensidão e céu
emanados das reentrâncias do verso,
pois ostentavas a nítida evidência
do teu nome pervagar meu verbo. 



III


Hás de censurar-me a similitude da carne.
Também hás de dizer-me que o teu nome
pervagar meu raro verso já não mais pode,
porque é de empenha e judiciosa clareza
que decanto o verso para te verem nele
à luz de como te vejo: cruíssima fereza.
Tomarás garganta voz e palavras minhas?
Emudecerás a úmida áscua do poeta?
Para quê? Para te veres livre deste
insólito alquimista do transitório,
arquiteto de entardecidas manhãs,
que apreende em poesia a fugacidade tua?
 

IV
                                                                                                                                                    

                                                               "L’âge mûr"
                                                                                                              

Que grande nada que tu és se de mim te apartas!
A minha sombra tu foste palavra e veemência
Exatos imprecisos girassóis dentro da noite. Ave!
Abismo e penhascos fui. Submergida constelação
a esmoer o rubro átomo da rudeza? Também! 
Te sorvi, carótida-oquidão, incontáveis mil vezes
em garganta de ferrugem e continências. Ávido!  
É preciso que venhas como vinhas, e não desprezes
o remanso  torvelino da carne, ela te pressente.
Amor, há tempos tateio a coruscante superfície do nada
E digo a mim é vão o sentir, mesmo poeta.
De mim, a ti, sobrevêm espera e placidez.
De ti, a mim, costado espádua e omoplata,
amarelecidos risos de submersos fugazes,
imprecisa geografia de trilhada inexatidões.
Que queres, se não aquele que te pensa e define,
e vive de intensos extremos dizendo ourivesarias?
Que grande nada que tu és se de mim te apartas!