quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Eu me explicando


Eu sou duas vertentes
querendo uma.
Sobre minha cara, o peso!,
o peso da poesia
de algumas horas...
Trago no meu rosto aceso
outras faces iluminadas de outros
Eus difíceis de determinarem
começo
               e fim.
No meio existo desmembrado:
dual
          duplo
                    bivalente
querendo uma só corrente
uma só vaga,
existindo como um isqueiro só faísca.
Nas duas pontas: Chama!
Querosene, gasolina, álcool
a alimentarem duas palavras-poesia.
Duas vertentes. Uma só Flama.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cartas de um Sedutor




                
               Hoje venho falar de um livro chamado Cartas de um Sedutor, da escritora, poetisa e dramaturga Hilda Hilst (sim, são poucos escritores que se destacaram em todos os gêneros e ela está inserida nesta diminuta plêiade!). Há uns 4 anos que a conheço e tudo por causa daquele irlandês – Dédalo como se autonomeava –  dado a neologismos (inventar palavras) que com uns 4 livros entrou para o rol dos gênios do século passado, tudo porque começou a aniquilar a sintaxe em Ulisses e terminou o serviço em Finnegans Wake: o livro intraduzível escritor em 62 idiomas misturados aos inglês. Lá estava o nome James Joyce no livro de uma escritora que havia se convertido a uma vida quase monástica numa fazenda em Campinas com 30 anos de idade ( à La Santo Agostinho rsrs) após ter lido livro de um grego chamado Kazantzakis, mas de escrita difícil, simbólica, poética, mística, erótica, autobiográfica e com nuances de Física ( Einstein e sua relatividade inseridos na obra Tu não te moves de ti: “ Mesmo que o trem se mova tu não te moves de ti meu filho.”.) Hilda Hilst foi uma escritora de poucos fiéis que punha-se a chorar por ver que tão poucas pessoas liam seus livros que tratavam sobre o Amor, sobre a dualidade humana, sobre Deus, sobre o ofício da arte, a lucidez e a força da palavra; revoltada, pensando que seria lida caso deixasse de ser tão séria pôs-se a trabalhar na sua trilogia erótica cujo Cartas de um Sedutor faz parte.
              Difícil é falar de Hilda sem ser complexo. Cartas de um Sedutor é um livro magnífico, mas de muitas entrelinhas, a começar pelo título proveitoso da obra Diário de um Sedutor do filósofo dinamarquês Kierkegaard, a história em si parece simples e cômica, mas mais fiel é a crença na comicidade da obra que em sua facilidade. Karl, o remetente, manda vinte cartas à irmã Cordélia, todas cartas provocativas, e os textos das cartas se misturam à vida de Stamatius, um poeta que acha os manuscritos  de Karl no lixo. A história é divertidíssima e exige almas livres de preconceito, pois homossexualidade, vocabulário chulo, tabus como o caso incestuoso de Cordélia com o irmão e o edípico com o pai compõem a “máscara do enredo” já que nas entrelinhas temos uma obra que em si é uma intertextualidade/uma paródia de obra de outrem com o intuito de falar sobre o ofício do escritor e dessacralizar, ao mesmo tempo em que sacraliza, a figura “mítica” que as pessoas tecem a respeito dos escritores como a passagem: “Tenho horror de escritor. A lista de tarados é enorme. Rimbaud, o tal gênio: catava os dele piolhos e atirava-os nos cidadãos. Urinava nos copos das gentes nos bares. Praticamente enlouqueceu Verlaine. (E a mãe de Verlaine?) Outro doido. Deu um tiro em Rimbaud. Se não me engano, incendiou a própria casa. Depois Proust: consta que enfiava agulhas nos olhinhos dos ratos. E espancava os coitadinhos. Genet: comia os chatos que encontrava nas virilhas do amante. Foucault: saía às noites, todo de couro negro, sadô portanto, ou masô, dando e comendo roxinhos”.Hilda Hilst exige almas corajosas, pois toda sua literatura é densa e vertiginosa, sem contar a bagagem cultural que deve o leitor possuir, pois seus textos fazem referência a uma vastíssima gama de anedotas, escritores, personalidades históricas e etc etc etc. Enfim, espero que esta curta resenha acenda em todos a vontade de ler a Hilst, não precisa ser necessariamente pelo livro aqui comentado, comece pelas poesias!



domingo, 16 de setembro de 2012

Vestígios do porvir





I
                                                                                 
 
Se não me quiseres por perto, manifesta-te.
Dize-me tua insatisfação no teu rir ensolarado,
que de entardecer e nuvens me farei ante tua face
um rir indevastado de sol todo-inteiro-estilhaçado.
Antes, tua palavra era pluma e metalescência.
E não havia em ti um premeditado despedir-se
como há em Rilke [em despedida sempre(!).]
Agora, tudo é insipidez e advertência,
pois predizes teu não-mais querer-me por perto
nos inúmeros vestígios de adeus do teu corpo.


II


Era de permanência o teu antes.
Por que o meu verso te parecia
ostensiva perfulgência.
E noturno, vias nele, rara claridade:
por que te convinhas perceber-te
arrimo colunata e alicerce dele.
E regozijado tu dizias ser
espaço imensidão e céu
emanados das reentrâncias do verso,
pois ostentavas a nítida evidência
do teu nome pervagar meu verbo. 



III


Hás de censurar-me a similitude da carne.
Também hás de dizer-me que o teu nome
pervagar meu raro verso já não mais pode,
porque é de empenha e judiciosa clareza
que decanto o verso para te verem nele
à luz de como te vejo: cruíssima fereza.
Tomarás garganta voz e palavras minhas?
Emudecerás a úmida áscua do poeta?
Para quê? Para te veres livre deste
insólito alquimista do transitório,
arquiteto de entardecidas manhãs,
que apreende em poesia a fugacidade tua?
 

IV
                                                                                                                                                    

                                                               "L’âge mûr"
                                                                                                              

Que grande nada que tu és se de mim te apartas!
A minha sombra tu foste palavra e veemência
Exatos imprecisos girassóis dentro da noite. Ave!
Abismo e penhascos fui. Submergida constelação
a esmoer o rubro átomo da rudeza? Também! 
Te sorvi, carótida-oquidão, incontáveis mil vezes
em garganta de ferrugem e continências. Ávido!  
É preciso que venhas como vinhas, e não desprezes
o remanso  torvelino da carne, ela te pressente.
Amor, há tempos tateio a coruscante superfície do nada
E digo a mim é vão o sentir, mesmo poeta.
De mim, a ti, sobrevêm espera e placidez.
De ti, a mim, costado espádua e omoplata,
amarelecidos risos de submersos fugazes,
imprecisa geografia de trilhada inexatidões.
Que queres, se não aquele que te pensa e define,
e vive de intensos extremos dizendo ourivesarias?
Que grande nada que tu és se de mim te apartas!