Hoje venho falar de um livro chamado Cartas de um Sedutor, da escritora, poetisa e dramaturga Hilda Hilst (sim, são poucos escritores que se destacaram em todos os gêneros e ela está inserida nesta diminuta plêiade!). Há uns 4 anos que a conheço e tudo por causa daquele irlandês – Dédalo como se autonomeava – dado a neologismos (inventar palavras) que com uns 4 livros entrou para o rol dos gênios do século passado, tudo porque começou a aniquilar a sintaxe em Ulisses e terminou o serviço em Finnegans Wake: o livro intraduzível escritor em 62 idiomas misturados aos inglês. Lá estava o nome James Joyce no livro de uma escritora que havia se convertido a uma vida quase monástica numa fazenda em Campinas com 30 anos de idade ( à La Santo Agostinho rsrs) após ter lido livro de um grego chamado Kazantzakis, mas de escrita difícil, simbólica, poética, mística, erótica, autobiográfica e com nuances de Física ( Einstein e sua relatividade inseridos na obra Tu não te moves de ti: “ Mesmo que o trem se mova tu não te moves de ti meu filho.”.) Hilda Hilst foi uma escritora de poucos fiéis que punha-se a chorar por ver que tão poucas pessoas liam seus livros que tratavam sobre o Amor, sobre a dualidade humana, sobre Deus, sobre o ofício da arte, a lucidez e a força da palavra; revoltada, pensando que seria lida caso deixasse de ser tão séria pôs-se a trabalhar na sua trilogia erótica cujo Cartas de um Sedutor faz parte.
Difícil é falar de Hilda sem ser complexo. Cartas de
um Sedutor é um livro magnífico, mas de muitas entrelinhas, a começar pelo
título proveitoso da obra Diário de um Sedutor do filósofo dinamarquês
Kierkegaard, a história em si parece simples e cômica, mas mais fiel é a crença
na comicidade da obra que em sua facilidade. Karl, o remetente, manda vinte
cartas à irmã Cordélia, todas cartas provocativas, e os textos das cartas se
misturam à vida de Stamatius, um poeta que acha os manuscritos de Karl no lixo. A história é divertidíssima
e exige almas livres de preconceito, pois homossexualidade, vocabulário chulo,
tabus como o caso incestuoso de Cordélia com o irmão e o edípico com o pai compõem
a “máscara do enredo” já que nas entrelinhas temos uma obra que em si é uma
intertextualidade/uma paródia de obra de outrem com o intuito de falar sobre o
ofício do escritor e dessacralizar, ao mesmo tempo em que sacraliza, a figura “mítica”
que as pessoas tecem a respeito dos escritores como a passagem: “Tenho horror de escritor. A lista de tarados
é enorme. Rimbaud, o tal gênio: catava os dele piolhos e atirava-os nos
cidadãos. Urinava nos copos das gentes nos bares. Praticamente enlouqueceu
Verlaine. (E a mãe de Verlaine?) Outro doido. Deu um tiro em Rimbaud. Se não me
engano, incendiou a própria casa. Depois Proust: consta que enfiava agulhas nos
olhinhos dos ratos. E espancava os coitadinhos. Genet: comia os chatos que
encontrava nas virilhas do amante. Foucault: saía às noites, todo de couro
negro, sadô portanto, ou masô, dando e comendo roxinhos”.Hilda Hilst exige
almas corajosas, pois toda sua literatura é densa e vertiginosa, sem contar a
bagagem cultural que deve o leitor possuir, pois seus textos fazem referência a
uma vastíssima gama de anedotas, escritores, personalidades históricas e etc etc
etc. Enfim, espero que esta curta resenha acenda em todos a vontade de ler a
Hilst, não precisa ser necessariamente pelo livro aqui comentado, comece pelas
poesias!


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